god complex

Ontem voltou a acontecer aquilo para que o Oscar B. tinha chamado a minha atenção quando nos conhecemos em Berna: fiz uma pergunta e, tendo a impressão que não fiz a pergunta certa, ia quase desmaiando. Fiquei triplamente vermelha. Achei que ia morrer. Cobri-me de vergonha. Arranquei os cabelos e as unhas (pelo menos mentalmente). Tive remorsos por ser intransigente com as perguntas dos outros. Achei que todos se estavam a rir de mim. Que aquilo era uma vingança do universo, que era karmico. Jurei que nunca mais havia de abrir a boca numa aula. E depois não ouvi a resposta.

carne e osso

A C. emprestou-me um livro sobre o Rossellini. Quando vi que o Nuno Bragança tinha estado presente numa das entrevistas que lhe foram feitas (num ciclo imenso que foi apresentado na Gulbenkian em sessenta e picos) senti um arrepio. Sei tão pouco sobre o homem, e li-o tantas vezes, que quando o encontro em sítios inesperados vem-me de repente a impressão que ele existiu, isto é, que saiu de casa, esteve com pessoas, teve um lugar no espaço-tempo. Não é que eu não o saiba, mas ver o Nuno Bragança a existir naturalmente junto dos seus, a ser um entre muitos, alguém de quem se diz “o Nuno isto, o Nuno aquilo”, como ontem ter visto a C. sair do prédio onde vive para me emprestar o livro, e disso ter sido normal, rotineiro, familiar, sem mala a tiracolo, enfim, aparições não mediadas por uma forma pré-determinada (um texto, uma voz, um estilo, uma aura) dão-me a impressão de estar num mundo que, de facto, não é sobre mim, no qual eu não sou central nem especialmente real – e isso é estranho e maravilhoso.

Isto tudo porque hoje de manhã estava no metro e não sabia se havia de ir à conferência da Chantal Mouffe, porque tenho tanto para estudar, e porque me lembrei da loucura à volta do Rossellini, e de como havia tanta gente à volta dele, gente com perguntas, ideias, opiniões, e pensei que talvez o Nuno Bragança também tivesse hesitado ir ao Rossellini, porque também ele tinha muito que fazer, mas foi, foi, e por isso eu também vou. 

economia

Comecei a escrever um texto giríssimo que adorava partilhar aqui&agora mas não o vou fazer – vou ser altamente forreta e guardá-lo todo para mim. Daqui a uns dias, quando já me tiver fartado de ser secretamente espectacular, publico.

Enquadramento 

Hoje acordei às seis. Ouvi os cães e levantei-me para os deixar sair. Fiquei uma hora na cama, acordada, a dormir, tanto faz. Dez minutos antes do despertador tocar, o Matisse apareceu. Eis o mistério dos meus despertares: ele aproxima-se da minha cara, ronrona, arranha as palhinhas da cadeira – e eu acordo, levanto-me para lhe abrir a porta e fico satisfeitíssima por me ter antecipado ao despertador. 
Depois acordo o J. É o primeiro toque – dez minutos à frente, quando já estive no jardim, já bebi café e já fumei, volto ao quarto dele. É o segundo toque. Ao terceiro, quando eu voltar ele ainda vai estar sentado na cama, de pijama, a olhar para a parede. Ou para a estante. Ou para o tecto. É então que o incito ao sprint (ligeira cara de má) e a coisa vai, veste-se, arrasta-se e aparece. Mais vinte minutos e há-de estar a apanhar o autocarro em frente à nossa casa, e eu talvez o veja pela janela, ou talvez já esteja na cozinha a fazer mais café.

O meu dia (a minha vida) tem duplo arranque. De novo no jardim, agora sem nevoeiro, preparo-me para tomar algumas decisões: e hoje, como é que se atravessa? Talvez seja patético mas a verdade é que até para enlouquecer gosto de ter hora marcada. Posso desesperar, mas desespero no enquadramento. 

Hum.

“We are uncomfortable with mothers thinking horrible things, even under horrible circumstances. We don’t want them to be cruel unless the cruelty is directed at someone who clearly deserves it. We are unnerved by maternal ugliness and malice and selfishness that can’t be entirely justified or — even worse — satisfyingly resolved.”