The Radicality of Love

“Each attempt to speak or even write about love is inevitably linked to a profound difficulty, to an anxiety: words are always insufficient. However, even if our attempt resembles a jump into dark water, we should dare to talk about love, with all the risks involved.”

Argumento ornitológico

Não tenho cigarros. Não tenho dinheiro. Só chego a casa à noite. Em casa também não tenho cigarros. Estou a pensar nisto e a entrar na faculdade. É meio-dia. Uma colega: olha, olha, como é que te chamas? Digo-lhe o meu nome. Ela saca de um Camel azul. Toma, diz-me, estou a deixar de fumar. O maço está cheio. Deus existe.

Birra

Incomodam-me perguntas estúpidas, precoces, apressadas e chico-espertas. Primeiro achava que era uma questão de juventude mas agora vejo que tem só que ver com o feitio. O que significa que não só os perguntadores serão (serão?) sempre perguntadores como também os incomodados serão sempre incomodáveis. É de referir, no entanto, que o fenómeno (isto é, o incómodo) só se dá nas aulas: no resto do tempo estou cool com perguntas estúpidas, precoces, apressadas e chico-espertas.

eureka

Esta manhã fui encontrada por uma pessoa cujo rosto me chegou sem história. Uma vez que ela parecia saber exactamente quem sou, decidi contar-lhe como vão as coisas sem me esforçar demasiado por reconhecê-la. É engraçado reflectir sobre o modo como falamos com os outros sobre coisas pessoais quando não fazemos ideia da imagem a que temos de corresponder, isto é, quando não sabemos a que parte de nós, e em que contexto, o outro já acedeu. Assim, aquilo que eu estava a dizer, se fosse uma pessoa que conheci na faculdade, não faria sentido nenhum. Ou se fosse alguém da Sertã. Ou se fosse uma ex-colega da era Colombo/2003. É incrível como o registo se ajusta automaticamente em função do outro, como nos transformamos várias vezes ao dia, às vezes por apenas alguns minutos, e de como um momento de amnésia pode fazer colapsar a nossa ideia de identidade. Pior do que não saber quem era aquela pessoa foi não saber quem é que eu devia ser.

agência humana revisited

Uma das coisas que me previne a escrita é o ver-me autora de textos que olham para trás, num momento em que me parece fundamental olhar para a frente. Não é que me tenha proibido de contemplar o que foi – mas só quero fazê-lo na medida em que isso me ponha a caminho do que será. Esta atitude de deitar a mão ao arado é uma forma de acção que tem como contraponto um silêncio pesado. Trata-se, creio eu, de perceber o que quero fazer – e já não apenas de descobrir quem sou. Ou, para ser mais exacta, quero descobrir quem sou única e exclusivamente a partir do que me proponho fazer.